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Claudia Correia

Vivemos, sonhamos, sorrimos…

As pedras rolavam a cada passo mais em falso. Já lhes doíam os pés cansados da caminhada através do cascalho, em subidas e descidas sempre íngremes. Há dias, peregrinavam sob o sol causticante de um vale perdido qualquer, sem árvores, sem água, sem vida. De repente, um precipício, um despenhadeiro, um escorregão, e lá se foi o par em busca do infinito, flutuando como penas de gaivota ao vento em plena solidão a dois. Acordaram, enfim.

Ao longe, então, descortinaram a grande cidade montada sobre as suas campinas verdejantes, em meio a outras menores em tamanho e em número de habitantes. Lá estava, na distância, um aglomerado de edifícios modernos, ruas largas e limpas, o estádio brinco de ouro da princesa e, enfim, a estação de passageiros apinhada de pessoas que iam e vinham de todos os lugares, naturalmente. A temperatura teimava em permanecer na casa dos doze graus acima, o que é incomum para os que vêm de uma região que bem se avizinha do equador. Frio intenso demais para roupas leves e um táxi cujos vidros teimavam em não fechar.



O distrito, um tanto distante, compunha-se de casas muito bonitas e em arquitetura moderna. Já a partir das primeiras ruas, podiam-se observar ruas planejadas, trânsito bem coordenado, canteiros floridos, árvores, qualidade de vida. Uma praça bem zelada era o cartão de visitas. Lá adiante, a torre de uma igreja moderna dava sinais de que a fé animava aqueles confins cheios de esperança. Contígua ao campanário, uma biblioteca bem sortida em suas amplas vitrines, títulos e portais.

Um homem, hoje morto, aqui apelidado orientador, serviu de recepcionista e cicerone. Extremamente amável, apesar da autoridade, ele os acolheu quase paternalmente. Disse-lhes que, antes, eles deveriam preocupar-se com uma vivenda onde pudesse residir um casal em sua primeira semana juntos, e daí por diante. Por informação de um jornalzinho da comunidade, depois de duas tentativas vãs, foi encontrada vivenda recentemente construída, cheirando a tinta fresca. Ali se instalaram depois da compra dos móveis e utensílios básicos à sobrevivência sem muito luxo.

Além dos demais itens do mobiliário, uma máquina datilográfica  Olympia foi adquirida, novinha em folha. A partir desta, seria escrita uma dissertação de mestrado, em três anos, o tempo regimental que já começava a esgotar-se.

A escola superior, hoje, ainda está entre as duas ou três melhores do País de sonhadores. Apenas ele estudaria. Ela era a acompanhante de um sonhador a mais. Já na primeira semana, algumas amizades foram garantidas, posto que, na sala de aula, havia gente dos mais longínquos rincões da Pátria amada. Na segunda quinzena, foi marcada, então, uma pequena reunião regada a uma bebidinha leve, o chope.

Um dia, em conversa de boteco, a mim o sonhador lembrou palavras de um certo Victor Hugo segundo quem um homem deve ser julgado bem mais corretamente por aquilo que ele sonha do que por aquilo que ele pensa. É assim mesmo a vida dos que refletem e só depois executam.

Na academia dos pequenos filósofos, as dificuldades eram diversas, mas foram encaradas a partir de um método onde, inicialmente, o conceito básico contido nos dicionários é o que vale. Os embates foram fortes com a fenomenologia, a epistemologia, a gnosiologia, dentre muitas outras. Mas os frutos passaram a ser colhidos e, em poucos dias, ainda com a ajuda dos amigos, um a um, os novos termos da vida acadêmica foram se enquadrando e se encaixando de forma a tornar claro o objeto de estudos que buscavam entender a problemática crônica da educação dos mais pobres do Brasil.

A convivência diária, em casa, era pautada pela organização da rotina de uma vida a dois que seria longa, talvez, a depender de como o empreendimento fosse levado a sério, ou não.

Um dia, de volta da escola de estudos avançados, ele encontrou a bela cúmplice alarmada, em prantos. Chovera granizo, coisa jamais vista por nenhum dos dois. Havia, ainda, parte das lágrimas vertidas à saudade dos familiares, notadamente irmãos, que ficaram na terra acreana. Um carinho a mais contornou a situação. Ele, dez anos mais velho, muito bem compreendia as circunstâncias e o choro.

Em fins de semana, na vitro-la rolava um blues. Ouviam-se, ainda em vinil ou fitas cassete, melodias de Vinícius, Caetano, Gal, Betânia, Milton, Chico, Gil, Tom e alguns clássicos da música erudita.

Às sextas, à tarde, a partir das quinze, eles rumavam para a cidade das campinas, de ônibus, em busca de um chope cremoso que lhes parecia temperado com uma pitada de açúcar. Dos deuses.

Ao cair da tarde, quase noitinha, voltavam para casa e, agora, trajavam roupas mais elegantes, posto que, a partir das vinte horas, as mentes eram desanuviadas no solar dos pampas, uma casa de churrascos com moda de viola e a mesma bebida com a mesmíssima qualidade. Iam quase até as duas da matina. Voltavam felizes e cantando pelas ruas do outrora pacato distrito de barão.

No sábado, o roteiro era praticamente o mesmo ou muito parecido. No Domingo, havia a feira, a Missa, o almoço no restaurante do marinheiro e, à tarde, a volta aos livros e ao batente acadêmico em que acalentava sonhos dourados de um futuro a dois no regresso à terra distante.

O senhorio era um homem do Piauí, de descendência libanesa. Dono de muitos imóveis, fez-se amigo do sonhador pelo fato de o mesmo ser um estudante de filosofia. Os negócios se fizeram favoráveis aos dois, em vista da amizade.
Com direito a almoço aos sábados e cerveja à beira da piscina da mansão do novo amigo, ainda à custa da sorte que nunca faltou aos dois, os dias se fizeram muito mais prazenteiros.

Estavam, enfim, adaptados à paisagem local. Ademais, durante a semana, depois das aulas, a atividade física diária não podia faltar. Ele ia para uma academia de musculação. Ela ia para um curso de ginástica aeróbica, onde arranjaram mais amigos.

Para coroar aqueles longos verões, viajaram os dois para a praia e sonharam tão longamente como os coqueiros de Jeribá.

O senhor Bacon, pensador frutífero de um século anterior, deixou grafado em bom pergaminho algo parecido com a assertiva segundo a qual não há solidão mais triste do que a do homem sem amizades. A falta de amigos faz com que o mundo pareça um deserto.

Com o tempo regulamentar cumprido e os objetivos plenamente alcançados, eles, mais uma vez, passaram a ter sonhos de crianças que voam como pássaros de arribação.

Um dia, então, tiveram que novamente partir em busca de mais aventuras, de outras grandes amizades, de filhos e de sonhos doutorais, com as graças de Deus.

*Autor de O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, romance, à venda nas livrarias Paim e Nobel.

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