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Luísa Lessa
Luísa Galvão Lessa Karlberg é pós-doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montréal, Canadá; doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); membro da Academia Brasileira de Filologia; presidente da Academia Acreana de Letras; membro perene da IWA. Email: less[email protected]

O tempo é um mestre

Muita gente vive pensando no  tempo de ontem, outros no de hoje, alguns no amanhã, no tempo… Mas, afinal, o que vem a ser o tempo, como definir sua grandeza e dizer o que se faz com ele? A resposta não é simples. Exige reflexão, análise, coisa que ninguém gosta de fazer, por absoluta falta de tempo. Esse tempo que é uma medida relativa da sucessão das coisas transitórias. Esse tempo consumido quase que inteiramente na luta pela vida, na batalha diária que se estende durante anos, décadas.

A verdade é que durante o desenrolar da peleja cotidiana, dessa insana luta, algumas pessoas conseguem reservar umas poucas horas semanais para o lazer e o descanso. Todavia, não se organizam para meditar sobre as questões cruciais da vida. Para essas coisas não se dispõe de tempo, não se pode, absolutamente, perder tempo com isso. Enquanto para uns o tempo é demorado, ligeiro ele se faz para outros. Mas será isso verdade? Não será o tempo igual para todos?! Dizem, até, ser o tempo a coisa mais democrática que existe. Se assim é, ele é o mesmo para todas as pessoas.



No que diz respeito à velocidade, o tempo explica-se pela vivência. É a vivência do ser humano que muda a partir de certa idade, e não o tempo. O tempo não muda. Os movimentos dos ponteiros do relógio apenas registram numericamente a passagem humana dentro do tempo. O tempo não passa, as pessoas é que passam dentro dele. O tempo não é um acidente. Ele acompanha a pessoa humana desvendando o modo de cada um acompanhar a vida.

Para passar bem o tempo, esse mestre impiedoso, cada pessoa deve olhar a sua volta, ver os sinais do tempo que passou. Depois, perceber que é preciso compreender o tempo de cada coisa, para dar respostas ao que a vida pede e espera de cada criatura humana. E na distribuição do tempo de existência, há tempo para cada coisa, etapa, momento, sonho. Tempo para a luta, o trabalho o esforço. Tempo de enfrentar desafios e superar limites. Tempo de ser humilde e reconhecer-se limitado. Tempo de buscar a sabedoria do repouso, de pacificar os impulsos, ordenar os desejos, sem perder de vista os sonhos mais impossíveis…

Ainda, há nesta vida o tempo da novidade e da surpresa, do surpreendente e do inusitado, quando o espetáculo da vida é todo brilho, festa e luz. Há o tempo do cotidiano e da rotina, do encantamento dos pequenos gestos, das alegrias suaves e duradouras. O tempo de cada pessoa ficar consigo mesma. Tempo da necessária bem-vinda e frutuosa solidão. Tempo dos silêncios que falam. Tempo de recolhimento reflexivo ao mais profundo de cada ser. Tempo do encontro, da partilha emocionada de gestos e palavras, do abraço afetuoso, da expressão do desejo, da paixão, da amizade essencial.

Assim, o tempo não para, pois em todo o tempo que existe há aquele de grandes avanços e conquistas. Tempo de realizações de projetos e sonhos. Tempo em que tudo que se toca é ouro e alegria, tempo dos grandes e pequenos fracassos. Tempo de recuos estratégicos e outros, inevitáveis. Tempo de despedida, perdas, danos e ganhos. Tempo de voltar à estaca zero e começar tudo de novo. O tempo de envelhecer, perder células cerebrais, força muscular, a capacidade de enxergar de perto, de perceber os sons mais agudos e os cheiros mais sutis.

Aquele tempo inexorável, mestre impiedoso, que põe cinzas nos cabelos e deixa a mesa cheia de ausências. O tempo que passa carregando consigo o novo e deixando para trás o tudo que envelheceu.

Seguindo adiante, há muitos outros tempos, como aquele em que a vida fecha portas na cara. O tempo em que, por teimosia e coragem, a pessoa ousa escancarar janelas com vistas para montanhas e mares, horizontes e vales. O tempo em que a esperança é apenas um jeito de sentir saudade daquilo que virá, do que se vai construir. E, desse modo, em todo e qualquer tempo, é possível descobrir que, apesar de pequeno e frágil, os seres humanos são raros e preciosos. É preciso valorar o tempo para maior sabor da vida e viver o tempo do amar, do querer, do receber, porque tudo na vida quer tempo e medida. – Mensura omnium rerum optima.

DICAS DE GRAMÁTICA
A PRINCÍPIO  ou EM PRINCÍPIO, Professora?
EM PRINCÍPIO –  o mesmo que “em tese”, “de um modo geral”, como na frase “Em princípio, achei você uma pessoa muito legal”
A PRINCÍPIO – significa “começo”, “início”, como na frase “A princípio, achei você uma pessoa muito legal. Mas depois percebi que me enganei.”

Quando usar “DEMAIS” ou “DE MAIS”?
DEMAIS pode ser usado como advérbio de intensidade no sentido de “muito”, e também como pronome indefinido no sentido de “outros”. Como na frase “A situação deixou os demais candidatos chateados demais!”
DE MAIS é o oposto de “de menos” e são sempre referidos a um substantivo ou pronome. Exemplo: “Existem candidatos de mais para eleitores de menos”.

“EM FACE DE” ou “FACE A”, como usar uma ou outra forma?
Não existe a expressão “FACE A” na língua portuguesa. Dessa forma, apenas é permitido utilizar a expressão EM FACE A. Exemplo: “Em face do aumento do dólar, não vou viajar para o exterior”

* Luísa Galvão Lessa Karlberg IWA– É  Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montréal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ; Mestra em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense – UFF; Membro da Academia Brasileira de Filologia; Membro da Academia Acreana de Letras; Membro perene da International Writers end Artists Association – IWA; Coordenadora da Pós-Graduação em Língua Portuguesa – Campus Floresta; Pesquisadora DCR do CNPq.

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