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Evandro Ferreira
Evandro Ferreira é pesquisador do INPA e do Parque Zoobotânico da Universidade Federal do Acre (Ufac). Email: [email protected]

As abelhas africanizadas ‘não invadiram’ a amazônia

Tenho certeza de que muitos de  vocês já assistiram um ou outro filme sensacionalista feito em Hollywood no qual abelhas desempenham o papel de ‘assassinas’ dos humanos com quem contracenam. De uma maneira geral esses filmes mostram corretamente que as tais ‘abelhas assassinas’ são invariavelmente de origem africana ou espécies híbridas resultantes de cruzamentos nos quais os genes das espécies africanas predominam sobre os demais. A razão do interesse de Hollywood pelas abelhas africanas ou africanizadas tem a ver com o comportamento extremamente agressivo dessas abelhas.

Antes da introdução acidental de abelhas africanas da espécie Apis mellifera scutellata no Brasil na década de 50, a produção de mel no país era baseada no manejo de abelhas das espécies Apis mellifera ligustica (oriunda da Itália), Apis mellifera mellifera (Alemanha) e a Apis mellifera carnica (Áustria), que haviam sido importadas da Europa havia mais de 100 anos. Essas abelhas europeias eram ‘mansas’ e o manejo de suas colmeias podia ser feito sem risco algum para os apicultores.



Tudo mudou em 1957 quando 26 enxames de abelhas africanas escaparam de uma área experimental na cidade de Rio Claro, no interior de São Paulo. O livre cruzamento das abelhas africanas e europeias resultou no surgimento de populações poli híbridas denominadas africanizadas, com predominância de características das abelhas africanas, tais como alta produtividade, alta capacidade de formar novos enxames, maior resistência a doenças e patógenos e maior agressividade.

A agressividade dessas abelhas se traduz em ataques a pessoas e animais que se aproximam de suas colmeias. Dependendo da intensidade dos ataques, é possível que aconteçam mortes de pessoas e animais. E isso aconteceu com frequência elevada nos primeiros anos após a introdução das abelhas africanas em razão do desconhecimento por parte da população e dos apicultores dos riscos representados pelas abelhas africanizadas.

A fama de assassinas que ganharam vem desse período e muito do pavor que se estabeleceu na época derivou de notícias sensacionalistas difundidas nas redes de TV, jornais e revistas do Brasil e do exterior. Não se pode negar que ao batizar as abelhas de ‘assassinas’, a imprensa buscava apenas aumentar o seu faturamento. Os estúdios de Hollywood, por seu lado, demonstraram interesse sobre o tema a partir da década de 70 quando ficou claro que as tais ‘abelhas assassinas’ estavam migrando da América do Sul em direção à América do Norte e que era inevitável a sua chegada ao território americano, o que se concretizou no ano de 1990.

Desde então muito tem se falado que as abelhas africanizadas estão tomando de conta das Américas. E essa fama se deve, em parte, ao fato de terem se deslocado a uma velocidade de 400-500 km/ano em direção a América do Norte. De fato, esse deslocamento anual é um feito e tanto. Equivale à distância entre Rio Branco e Tarauacá, por exemplo. A alta capacidade de defesa, de adaptação a ambientes inóspitos e a capacidade de reprodução com ciclo de vida mais curto que as demais subespécies são características das africanizadas que mais se assemelham às das abelhas africanas nativas. E são essas características que permitem seu significativo aumento populacional.

Afora a agressividade excessiva, a introdução das abelhas africanas no Brasil foi benéfica para a apicultura do país. Antes da introdução das africanas a produção brasileira de mel oscilava entre 3 e 5 mil toneladas/ano e algumas décadas depois a produção atingiu mais de 40 mil toneladas/ano.

Apesar de toda a agressividade e capacidade adaptativa, uma situação tem intrigado os pesquisadores: apesar da exuberância e da grande extensão territorial da floresta Amazônica, abelhas africanizadas dificilmente são vistas ou coletadas no interior de florestas densas na região.

Para tentar entender o ‘fracasso’ das abelhas africanizadas na colonização das florestas primárias da região, os pesquisadores Marcio Luiz de Oliveira e Jorge Alcântara Cunha, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), fizeram um estudo para testar a capacidade das abelhas africanizadas em penetrar florestas contínuas ou fragmentos florestais e, quando isso ocorria, determinar que distância no interior da floresta elas poderiam atingir.

Para o estudo, os pesquisadores espalharam diversas iscas no interior de fragmentos de florestas e de florestas contínuas na Amazônia central e em áreas desmatadas das proximidades. O resultado da pesquisa demonstrou que nenhuma operária de abelhas africanizadas visitou qualquer tipo de isca nos fragmentos ou na mata contínua, somente nas áreas desmatadas.

Os motivos de as abelhas africanizadas não terem visitado nenhum tipo de iscas dentro da floresta contínua e nos fragmentos florestais ainda não estão claros, mas algumas hipóteses são sugeridas: (a) Parece existir uma baixa densidade populacional de abelhas africanizadas na região amazônica; (b) Em regiões de trópico úmido as colônias de abelhas do gênero Apis são muito debilitadas por fungos, doenças microbianas, ataques de formigas, abelhas e vespas ou destruídas por vertebrados predadores de ninhos; (c) Em condições de alta pluviosidade o aporte de néctar poderá ser menor que o consumo, pois as operárias não saem da colmeia durante as chuvas e, após as mesmas, só encontram flores lavadas, resultando em diminuição nos estoques de alimentos e dificuldades para alimentar as crias, que ficam mal nutridas e sujeitas a doenças; (d) É possível obter recursos necessários de modo mais fácil em ambientes abertos, onde o forrageio pode ser feito nos estratos mais baixos, em torno de 15 m, enquanto na floresta as copas das árvores estão a 30 m.

Os autores do trabalho tecem algumas considerações interessantes: (a) Apesar da floresta exuberante e rica em floradas, a apicultura em grande escala na região parece ser inviável nas áreas mais densamente vegetadas, que, conforme mostrou o estudo, não são visitadas pelas abelhas africanizadas; (b) Se o pleno desenvolvimento da apicultura requer grandes áreas abertas para as abelhas forragearem, uma alternativa para a região amazônica seria a utilização das diversas áreas degradadas existentes, como as que outrora foram destinadas às pastagens, até como tentativa de acelerar a recuperação dessas áreas; (c) O fato de nenhuma operária africanizada ter sido vista visitando as iscas na floresta contínua ou mesmo nos fragmentos de floresta, ocorrendo visitas somente nas áreas desmatadas e capoeiras próximas, indica a inexistência de competição por recursos com as abelhas nativas no interior da floresta.

Para saber mais: Marcio Luiz de Oliveira e Jorge Alcântra Cunha. 2005. Abelhas africanizadas Apis mellifera scutellata Lepeletier, 1836 (Hymenoptera: Apidae: Apinae) exploram recursos na floresta amazônica? Acta Amazonica 35(3): 389-394.

*Evandro Ferreira é engenheiro agrônomo e pesquisador do INPA/Parque Zoobotânico da UFAC

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