ARTIGO – Caboquim

No Município de Senador Guiomard, embora eu prefira Quinari, está o Ramal Oco do Mundo, situado entre o Ramal Nabor Júnior e o Ramal do Bigode. No Acre, Ramal é um caminho secundário, sem asfalto. Lama no inverno, poeira e buracos no verão. O Ramal Oco do Mundo inicia no asfalto da BR-364 e termina na margem direita do Rio Iquiri.

Percorrendo uns 20 km do Ramal Oco do Mundo vamos encontrar a Fazenda Caboquim, propriedade de uma família numerosa cujas origens estão no Juruá. O nome Caboquim é em homenagem ao patriarca dessa família notável, composta de políticos, advogados, médicos e professores, com atuação marcante em todo o Acre. Um dos membros dessa família, o Dr. Correia, também é conhecido como Caboquim, um médico veterano de Cruzeiro do Sul.

Observando imagens de satélite notamos uma ocorrência fantástica na Fazenda Caboquim. Obtida a permissão com o Prof. João Correia, nosso colega na UFAC, tivemos acesso ao local para observar, efetuar medições e escavar. Trata-se de um conjunto de montículos, formando um círculo de algumas dezenas de metros, com caminhos bem marcados para o norte e para o sul.

Centenas de anos antes da labuta nos seringais e da chegada do gado nelore, antigos habitantes viviam nesse lugar. Feitas as escavações, as datações revelaram uma ocupação humana com datas aproximadas de 900 a 1.100 anos passados. Portanto, ao menos uns 500 anos antes das caravelas de Cabral aportarem no Brasil.

Mais ainda, a antiga aldeia “Caboquim” – assim foi registrada – estava conectada com outras aldeias nas proximidades. O caminho para o norte, depois de uns 6 km, nos leva para o sítio da Dona Maria, já próximo do Iquiri. O caminho para o sul, depois de percorrer 3 km metros, segue até o sítio Boa Esperança.

Esses dados preliminares, convenceram os pesquisadores a usar uma inovadora tecnologia chamada LiDAR – um equipamento, tipo laser, acoplado a um helicóptero – para mapear os caminhos e aldeias geométricas ao longo dos Ramais Nabor Júnior, Oco do Mundo, Granada e do Bigode. O LiDAR oferece ótima resolução e permite observar as estruturas e caminhos mesmo que estejam recobertos por densa floresta.

A necessidade do uso do helicóptero, encareceu sobremaneira o custo do projeto. Não existe helicóptero para aluguel no Acre. Foi necessário deslocar um aparelho de Porto Velho, e só essa operação acrescentou uns 1.000 km a mais aos roteiros de sobrevoo.

O uso das novas tecnologias nos leva a concluir que o sudoeste da Amazônia, no interflúvio dos rios Purus e Madeira, não foi abandonado depois que os últimos Geoglifos foram construídos por volta de 950 D.C. (Depois de Cristo). A região foi ocupada por um florescente sistema regional de pequenas aldeias indígenas interligadas por caminhos e estradas primitivas.

Essas aldeias eram ocupadas por agrupamentos humanos sedentários que dispunham de tecnologias para organizar seus assentamentos de forma perene e que criaram uma vasta rede de comunicação composta por estradas, caminhos e varadouros no interior da floresta, em locais distantes das margens dos rios.

A existência desses caminhos indígenas primitivos explica a facilidade com que, em 1877, o Coronel Labre percorreu a pé e sem maiores dificuldades cerca de 300 km desde a região de Riberalta, na Bolívia (na foz do Beni), até a boca do Riozinho do Rola, nas proximidades da atual cidade de Rio Branco.

Também fizeram uso desses caminhos as tropas da Revolução Acreana, lideradas por Plácido de Castro, notadamente a partir da margem do Rio Acre para atacar as forças Bolivianas nas terras do hoje Departamento de Pando, no país vizinho. Esses mesmos caminhos foram usados pelos bolivianos em seus deslocamentos até a cidade de Puerto Alonso, hoje Porto Acre.

Os estudos arqueológicos no Acre sempre nos trazem novas informações dos antigos habitantes dessa região e agora também perenizam o nome do nosso personagem, sendo ainda uma homenagem para a grande família onde o Caboquim é reverenciado como patriarca.

*Alceu Ranzi é professor aposentado da UFAC

**Evandro Ferreira é pesquisador do INPA e do Parque Zoobotânico da UFAC


Para saber mais:

Iriarte, J.; Robinson, M.; de Souza, J.; Damasceno, A.; da Silva, F.; Nakahara, F.; Ranzi, A.; Aragão, L. 2020. Geometry by Design: Contribution of Lidar to the Undestanding of Settlement Patterns of the Mound Villages in SW Amazonia. Journal of Computer Applications in Archaelogy, n. 3, v.1, pp.151-169.

Labre, A.R.P. 1888. Viagem Exploratória do Rio Madre de Diós ao Acre. Revista da Sociedade de Geographia do Rio de Janeiro, Tomo IV, pp.102-114.


– Crédito da foto do Dr. Alceu Ranzi: Maurício de Paiva.

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