No patamar da desilusão!

Por conta do seqüestro e, provavelmente, morte brutal do jovenzinho Fabrício Costa, foi deflagrada, nestes dias aqui em Rio Branco, uma verdadeira pluralidade de “idéias” ou “saídas” para a realidade da violência que fogosa campeia os quadrantes da nossa Capital e, por extensão, do Estado do Acre. 

O que pontifica nesses “debates” é a desesperada pergunta: Onde está ou estará à resposta para o problema da violência?  Estará em mais ação da polícia? Numa punição mais rigorosa (a pena de morte)? Em mais elevada educação? Em atitudes governamentais mais rígidas? Contudo parece que ninguém tem respostas para estas perguntas. As respostas, quando muito ficam no campo dos debates simplórios. É como eu afirmei cerca de um ano atrás, daqui mesmo. É clichê mil vezes repisado, por décadas, sem que se tenha pelo menos uma resposta em que possamos nos agarrar. Não temos respostas. Tudo é paliativo. Mesmo porque de ilações equivocadas estamos todos saturados, e só podemos levar em consideração os apelos oriundos da sociedade, notadamente daquelas pessoas que perderam seus entes queridos, de forma atroz. Quanto aos discursos inflamados e os “debates dramáticos” da classe política, nas casas legislativas ou no Congresso Nacional, com todo o respeito que alguns são merecedores, nada mais são do que santa hipocrisia.

Acatamos, em parte, como causas dessa violência generalizada os argumentos de sociólogos que, quase sempre, querem associar a ação violenta (estupros, assaltos, agressão nos lares, rebeliões nos presídios, entre outros males) à miséria, as drogas, má distribuição de renda, ausência de programas de inclusão social, educação, desemprego e direitos humanos negados. No entanto, mesmo considerando tais apontamentos como fatores de desajustes e caos social, entendemos, por outro, que essas são apenas questões objetivas. Há muito mais por traz dessa, notadamente, desigualdade social.

Existe, também, o radicalismo dos religiosos afirmando peremptoriamente que não tem jeito. É sinal dos tempos. São as profecias se cumprindo, pois é profético que à medida que o tempo passa pelo menos no calendário humano, os dias se tornariam mais difíceis, pois “os homens seriam mais egoístas, avarentos, orgulhosos, arrogantes, desobedientes, ingratos, irreverentes, sem amor fraternal; implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, traidores, atrevidos; antes amigos dos prazeres do que amigos de Deus”. Os maometanos dizem: “está escrito!”.

Arriscar-me-ia a dizer, se não for demais, que por sua capacidade racional, o homem, por expe-riência, já deveria saber de antemão ou prever com antecedência as conseqüências “presentes e futuras” dos males que ainda nos esperam. Entretanto, quem pode antecipar, em sã consciência, o que ainda virá no campo da crueldade humana? A guisa de exemplo temos aí o caso do jovem Fabrício que segundo depoimento de um dos seus algozes, foi esquartejado. Ano passado tivemos o assassinato de um professor universitário que foi enterrado vivo. Portanto nada me demove da desilusão quanto ao futuro da existência humana.

Ademais, com o recrudescimento da violência nossa de cada dia, aqui e em outras plagas, com conseqüências absurdas e danosas, podemos dizer, sem exagero ou leviandade, que estão eliminados, sumariamente, a justiça e o direito. A maioria dos bandidos que andam por aí assaltando, estuprando e matando é composta de ex-presidiários beneficiados por leis obsoletas. Nesta semana a Justiça condenou a cumprir a simplória pena de 12 anos, o cara que matou a própria esposa a facadas. Este sujeito que violentava a esposa constantemente daqui a poucos meses estará solto para fazer novas vítimas.

Ao tornar pública a minha descrença e o meu pessimismo quando o assunto é debelar a violência desço ao patamar da desilusão, e não estou só: há miríades, dezenas de milhares de brasileiros desiludidos, pois que a vio-lência é uma situação endêmica, que nos afeta a todos. Apesar do meu pessimismo abeberado dos ensinos de Platão, que dizia que os desejos da carne (concupiscência) são irremedia-velmente sem cura, só vejo uma saída para a raça humana: Sugestionada por Agostinho (354-430), que era platônico. Ele, Agostinho, que viveu boa parte da sua existência, uma vida promiscua, que foi escravo das suas abomináveis paixões terrenas, aos 31 anos chegou à conclusão de que apenas com a ajuda da Graça Divina, o homem se libertará dessa natureza corrupta permeada de temores, de desejos, de angústias.

Natureza corrupta que se afadiga para conseguir o que não possui encolerizá-se quando ofendido e incita-se a buscar a vingança. O homem, atormentado pela ambição, pela inveja, por sua infinidade de paixões, causa, por seus atos soberanos, as grandes e terríveis mazelas humanas. Desgraça humana que só pode ser curada pela intervenção da Graça Divina. “O ser humano, segundo Agostinho, está incapacitado de não pecar”. O ser humano só se livrará dessa “incapacidade de não pecar” através da Graça Divina.

Assim, “A luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras são más”.

* Franciosco Assis dos Santos é professor e pesquisador (de gabinete) em Filosofia e Ciências da Religião.
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