Filosofia do túmulo vazio

O que acontece com o Homem depois da morte? Tudo acaba ou a vida continua depois da morte? Continuando na série de indagações, existe individualidade depois da morte ou o ser adentra e é dissipado no oceano do Universo? E quanto à reencarnação? Poderia ser Deus justo sem a reencarnação?

Estas são questões polêmicas e difíceis para a Humanidade responder em um único coro, mesmo com todo aparato tecnológico e desenvolvimento científico. Todavia, isso se deve principalmente pela pouca contenda devido ao tabu de não se discutir sobre a morte, tal como se ela não fosse inerente à condição humana. Que estranheza, pois justamente a morte é o evento mais natural e certo na vida do Homem e é um dos capítulos menos compreendidos e mais dogmatizados de sua história. Não seria correto o estudante aprender assuntos que sejam úteis e aplicados no seu dia-a-dia? Não caberia conhecimento preciso, geral e prático, se possível, sobre a morte e suas conseqüências para o Homem do que simples e meras suposições pessoais? Como descansar em paz sem a certeza do outro lado? É válido pensar num Deus que predetermina o destino e a morte do Homem? Esta última questão parece ser óbvia a resposta de que não existe a predestinação total e absoluta, caso contrário não haveria livre arbítrio, nem culpa, pois não se pode ser culpado daquilo que não se é responsável. Nem haveria crescimento e progresso humano, pois estes vêm atrelados ao amadurecimento e a aprendizagem do uso racional do livre arbítrio.

Caso invertêssemos um pouco a lógica de raciocínio e desenvolvimento do artigo e partíssemos da premissa de que a missão do Homem na Terra é a aprendizagem, a obtenção e o acúmulo de conhecimentos e experiências que o tornariam cada vez menos imperfeito ao longo do tempo, então teríamos condições de olhar por outro ângulo a seqüência de perguntas iniciais.

Passaremos em seguida, com olhar crítico, as questões. A primeira opção (a visão materialista) de que com a morte tudo acaba não seria mais interessante, já que não haveria mais estímulos para o crescimento, nem para a aprendizagem. De que adianta ser austero na vida se a morte acaba com tudo?! O niilismo materialista se sobressairia, pois a morte seria o desperdício de tudo. Não haveria nem recompensas, nem punição para o bom e/ou mau aluno.

Diferentemente da anterior, a hipótese de que há vida depois da morte, mas sem a reencarnação enfatiza as recompensas e punições no post-mortem, mas sem oportunidades futuras de corrigir os erros ou de aprender novas lições que não tiveram tempo de ser aprendidas no curto período de tempo de vida. Não há continuidade, apenas um grande vão.

Por sua vez, a perda da individualidade e a dissolução do indivíduo no caldo do Universo parece se enquadrar na mesma situação do materialismo, pois não promove o estímulo do crescimento individual, nem recompensando àqueles que mais se esforçaram.

Por fim, a opção da sobrevivência do ser depois da morte do corpo físico juntamente com a reencarnação torna não apenas as recompensas e punições individuais vinculadas as obras e realizações do ser, mas também possibilita a continuidade em uma vida futura tal como se esta fosse uma seqüência progressiva, ao estilo de séries escolares, de aprendizagem do indivíduo. Assim sendo, esta última alternativa é a opção que mais promove o estímulo à aprendizagem e ao crescimento individual de maneira incessante, pois coloca o peso da continuidade sobre os ombros do próprio indivíduo, bem como da responsabilidade e das conseqüências de se abusar ou não do livre arbítrio. Com isso será dado a cada um conforme as suas obras e merecimentos, mas sem esquecer de que haverá oportunidades futuras para o recomeço e a continuidade na jornada de aprendizagem, mesmo para aqueles que mais valharam.

Pode ser que ainda leve anos para a ciência comprovar de maneira apodíctica, ou seja, sem sombra de dúvidas, principalmente devido a lentidão de se mudar o padrão de comportamento e de pensamento de uma sociedade. Todavia, como eternos estudantes, os cientistas têm todas as razões para apostar na reencarnação como opção lógica e racional para se justificar uma vida baseada no estudo, na obtenção de conhecimentos, no desenvolvimento da inteligência visando não apenas o bem comum, mas também o benefício e crescimento próprio. Quanto à questão “Poderia ser Deus justo sem a reencarnação?”, deixo aos leitores para que eles possam pensar e analisar, refletir e vivenciar, pois é necessário desmistificar e quebrar o tabu de que a morte é algo estranha ao homem. Apenas tememos aquilo que não conhecemos. Que a paz esteja com todos nós.

 

Paulo Hayashi Jr.
Doutorando em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

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