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Luísa Lessa
Luísa Galvão Lessa Karlberg é pós-doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montréal, Canadá; doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); membro da Academia Brasileira de Filologia; presidente da Academia Acreana de Letras; membro perene da IWA. Email: [email protected]

A PRESENÇA DA RETÓRICA NO USO DA LINGUAGEM

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O texto aborda aspectos da ciência retórica, definição e seus efeitos sobre a  linguagem, o gênero discursivo. Não se faz, aqui, um tratado, mas breve reflexão sobre a arte da eloqüência. Com esse propósito, o texto identifica a retórica como a faculdade de ver, teoricamente, o que pode ser capaz de gerar a persuasão sobre o outro, bem como os recursos utilizados pelo emissor/orador para influenciar o receptor/público.

A retórica é uma arte (techne, em grego) que se dedica ao domínio do discurso em todos os seus níveis, tendo em vista obter-se uma maximização dos seus efeitos sobre o público. Ela foi dividida já na Grécia antiga em três modalidades ou gêneros, conforme o seu objeto, público e fim:

1) retórica judicial, genus iudiciale, na terminologia latina – tem o seu local privilegiado no tribunal. O tempo verbal é predominantemente o passado, pois se julgam ações passadas;

2) retórica deliberativa ou política, genus deliberativum – local privilegiado é a praça pública.O tempo verbal é o futuro, pois o orador delibera sobre ações futuras que deverão ser empreendidas.Isso acontece em forma de promessa;

3) retórica epidíctica ou demonstrativa, genus demonstrativum – esse gênero opta por elogiar ou censurar uma pessoa – próprio para festas, velórios, enterros. O tempo verbal está no presente, pois o princípio da epideixis é descritivo e visa à apresentação da pessoa elogiada ou censurada.

A linguagem retórica tem características próprias: a) emprego de recursos persuasivos: acredito, estou certo, estou convencido, não restam dúvidas, é verdade, não pairam dúvidas, tenho certeza, estudos apontam, é absolutamente correto dizer, está evidente etc; b) não tem preocupação com verdade do conteúdo, o importante é convencer, persuadir o receptor/público no propósito do emissor; c) não recorre a um experimento empírico nem à violência,  ganha a adesão intelectual do público pelo uso da argumentação; d) uso da linguagem comum do dia-a-dia, e não de uma linguagem técnica ou especializada; e) mensagem dirigida a todos os homens, e não a um setor específico da população; f) não transmite noções neutras e assépticas, pois tem em vista um determinado comportamento concreto resultante da persuasão, com o propósito de modificar não só as convicções, mas também as atitudes de outras pessoas.

Ainda, a retórica divide a preparação e apresentação de um discurso em cinco fases:

1) invenção,do latim inventi –  fase da busca de temas relacionados ao objeto que será exposto. Aqui deve ser estabelecido um conjunto básico de questões a serem respondidas no momento da invenção: quem, o que, onde, com que, por que, como, quando?

2) disposição, dispositio – momento em que o orador organiza a apresentação das suas idéias, segundo diferentes estratégias de convencimento. Seu acento pode variar, ora recaindo ou sobre as emoções mais fortes — visando à comoção ou sobre afetos mais amenos, ou ainda sobre uma apresentação ordenada com base em argumentos racionais (princípio didático).O importante é que haja uma adequação entre o objetivo do orador, seu método e o público alvo do discurso.

3) elocução, léxis, elocutio – fase corresponde à passagem adequada das idéias (res) para as palavras (verba) correspondentes. É a própria teoria do estilo e da ornamentação da linguagem. Aqui estão presentes as descrições, tropos e figuras retóricas.

4) memória – etapa da memorização do discurso, após sua elaboração. O bom orador deve ter em mente aquilo que vai falar, pois o convencimento do outro começa a partir da segurança que tem sobre o assunto. Para a memorização, a teoria retórica desenvolveu uma complexa metodologia que tem sido recuperada, nas últimas décadas, em inúmeros estudos acadêmicos.

5) ação, hypocrisis, pronunciatio – momento em que o orador declama seu discurso. Ele deve ser trabalhado tanto do ponto de vista de entonação da voz, pausas, recursos da linguagem corporal e gestual. Esta ação deve passar confiança, segurança, convicção, simpatia, certeza daquilo que diz o orador.

Conclui-se dizendo que enquanto o discurso demonstrativo-analítico utiliza a lógica formal, com provas impessoais, aceitas universalmente, no discurso retórico não há exigência de prova, aqui é vital a relação entre o emissor (orador) e o receptor (público). A verdade obtida pela lógica formal é sempre universal e incontestável, enquanto que a adesão obtida pela argumentação não é de todos e sim daquele conjunto de pessoas a quem o emissor (orador) deseja influenciar mediante o seu discurso. Assim, quanto mais o emissor (orador) conhece o público, maior será a chance de acordos prévios (convencimento), por saber com quem joga e a quem deseja impressionar, persuadir, aliciar,convencer com as palavras. A argumentação da sua linguagem retórica atingirá esse público em cheio, induzindo-o, impressionando-o, formando opinião, gerando crença e até mesmo paixão. Essa arma  da linguagem retórica tem sido utilizada pelo ser humano como forma de os mais fortes aprisionarem os mais fracos. Com a modernização, o avanço tecnológico, a linguagem retórica vai se aprimorando e quem a utiliza ganha a adesão, por vezes, inimaginável. A linguagem retórica é arma perigosa. De sua mira devem os mais frágeis fugir, para não serem seduzidos e ludibriados. O caminho é a educação, a leitura além das letras.

 

LIÇÕES DE GRAMÁTICA

Comeu frango “ao invés de” peixe ou Comeu frango “em vez” de peixe?

Em vez de indica substituição. Então diga: Comeu frango em vez de peixe.

Ao invés de significa apenas ao contrário: Ao invés de entrar, saiu.

 

A feira “inicia” amanhã ou  A feira “inicia-se” amanhã?

– Alguma coisa se inicia, se inaugura: A feira inicia-se (inaugura-se) amanhã.

Sentou na mesa ou Sentou-se à mesa para o jantar?

– Sentar-se (ou sentar) em é sentar-se em cima de. Assim, diga: Sentou-se à mesa para o jantar. Sentou ao piano, à máquina, ao computador.

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Luísa Galvão Lessa Karlberg – É Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montreal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.