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acre para o mundo

Chefs querem criar ‘identidade gastronômica’ do Acre em projeto ousado que irá percorrer todas as regionais

A iniciativa, idealizada por Rafa Brozzo, busca identificar ingredientes locais, como frutas, óleos, plantas alimentícias não convencionais, entre outros, através do mapeamento de todas as regionais do Estado do Acre, valorizando a cultura e identidade acreana

As chefs Kamilla Mantovanelli e Rafa Brozzo (Foto: Divulgação/Acre para o Mundo)

Que o Acre tem imenso potencial culinário não é novidade, no entanto, sua identidade gastronômica é algo que ainda está sendo construído ao longo dos últimos anos. Para acelerar este processo e consolidar o Estado como rota do turismo gastronômico mundial, as chefes Rafa Brozzo e Kamilla Mantovanelli se uniram para criar um projeto ousado e único: “Acre para o mundo”.

A iniciativa, idealizada por Rafa Brozzo, busca identificar ingredientes locais como frutas, óleos, plantas alimentícias não convencionais (Pancs), entre outros, através do mapeamento de todas as regionais do Estado do Acre, valorizando a cultura e identidade local e, principalmente, trazendo um novo olhar para itens familiares para a população acreana, mas que ainda são subestimados em seu potencial culinário.

Embaixadora da Gastronomia Acreana, premiada com o “oscar” da Gastronomia Brasileira, na Edição 2019/2020, a chefe Rafa Brozzo quer promover a gastronomia do Acre, missão esta que se tornou ainda mais forte após sua vitória no prêmio Dolmã.

“Uma das responsabilidades e compromissos que nós temos é de sempre levar a bandeira do nosso estado onde quer que a gente vá e, depois que eu ganhei esse título, essa coisa ficou queimando no meu peito, e a gente orando muito para que Deus nos mostrasse qual seria a melhor forma de isso acontecer, tive a ideia de criar um projeto que falasse do turismo gastronômico do Acre, uma forma de falar dessa identidade do Acre através da gastronomia, das nossas culturas tradicionais, povos tradicionais, como os indígenas, os ribeirinhos, e a gente pode mostrar primeiro para os acreanos essa identidade, e agora com todos esses festivais, trabalhos que a gente tem apresentado, mostrar também para o mundo todo”, conta Brozzo.

Público alvo

Como socióloga com grande grande experiência junto às comunidades tradicionais do Acre, Brozzo conheceu de perto o sistema de escoamento da produção ribeirinha e esta experiência é que ela vai usar na construção e transferência de conhecimento, ao longo do projeto que começou há dois meses, mas que ela e Mantovanelli esperam concluir até meados de 2022.

“A gente está estruturando uma agenda para que a gente consiga criar essa identidade gastronômica do Acre até o segundo semestre do ano que vem (…) O nosso público-alvo são desde turistas – porque a gente fala de turismo gastronômico, por isso o nosso foco principal vai começar nas aldeias e no Juruá, porque são pontos turísticos consolidados – e a comunidade acreana, porque a gente precisa mostrar para os acreanos, através das feiras, festivais, jantares, mostras gastronômicas, então agente vai fazer muitas ações em vários locais”, destaca.

O mapeamento já começou em Rio Branco, onde as chefs iniciaram a identificação dos ingredientes mais usados. “Esse mapeamento vai servir de base para a nossa gastronomia na capital, já cobrimos todas as feiras, tanto no Mercado Velho como Novo, mapeamos os ingredientes com os produtores, criamos muitos pratos em Rio Branco e todos esses vão estar no nosso livro, além de homenagear pessoas importantes para a história da gastronomia no Acre, como por exemplo, a família Abrahão, cuja mãe foi uma das criadoras do rabo no tucupi ou a dona Inês, a família dela vem de uma geração de mulheres cozinheiras. E, no Juruá, estamos também buscando alguns contatos, então essas famílias foram muito importantes, e a gente vai fazer essa busca pra contar as histórias destas pessoas”, conta Brozzo.

Como parte da agenda do projeto, um dos grandes avanços conquistados é a assinatura do cardápio de um dos principais festivais do Acre, o Yawanawa, que acontece todos os anos. Nos dias 12 e 13 de novembro, portanto, o festival terá um cardápio especial para os visitantes. “A gente fez parceria com a Aldeia Yawanawa e, em novembro, vamos estar lá, assinando o cardápio do maior festival indígena do Acre, pessoas do mundo inteiro vão estar lá degustando esses pratos com ingredientes típicos da aldeia”, comemora Brozzo.

Todo o conteúdo catalogado por meio do projeto irá culminar na publicação de um livro completo com a história da gastronomia no Acre, além dos ingredientes e pratos criados a partir deles, que, unidos, formarão o objetivo do projeto: a identidade gastronômica do Acre.

O trabalho desenvolvido pelo projeto dará origem a um livro (Divulgação/Acre para o Mundo)

Impacto social 

Com o projeto alcançando toda a cadeia gastronômica, desde os chefs que criam as delícias inspiradas nos elementos amazônicos, até os profissionais informais, é inegável o impacto social do projeto “Acre para o Mundo”, que traz um novo olhar sobre os ingredientes típicos do Acre, contribuindo, portanto, com a diminuição da insegurança alimentar e o fomento da economia, é isso que a chefe Rafa Brozzo espera com o projeto.

“A gente tem duas questões: a informalidade grande, porque as pessoas abrem uma pequena empresa sozinhas, correm o risco de fechar por conta da inflação, e quando você trabalha sem um pouco de conhecimento, sem técnicas de estudo, esse risco aumenta. Então, vejo que nós podemos ser uma ponte de informação, mostrar um novo conhecimento, uma forma nova de cozinhar, produzir, às vezes até de comprar, porque a gente fala muito da origem dos alimentos. A gente precisa criar esse hábito entre escolher um produto que vem de fora e um produto que vem do Acre, para que a gente possa sempre escolher tudo o que vem daqui. Os acreanos não têm esse hábito de quando vêem o produto dele comprar… Mas isso fortaleceria a economia, para comer melhor, comer menos processado, e a outra forma é a gente mostrar o conhecimento da dona de casa”, ressalta.

Nove chefs em um jantar

Como parte do cronograma do projeto, as chefs se preparam para a realização de um jantar que irá reunir nove grandes chefs acreanos, em um único jantar preparado com ingredientes típicos acreanos.