Tríades nacionais por demais

1. Acima do bem e do mal
Pelos menos em tese, nenhum de nós, reles seres humanos, subproduto da obra de Deus, deverá postar-se acima do bem e do mal. Não haverá no paraíso terrestre alguém que não tenha uma mancha, desde que o Adão colocou a culpa na Eva que colocou a culpa na maçã que colocou a culpa na cobra que colocou a culpa em Deus.

Ocorre, entretanto, que o Brasil aconteceu muito depois, fruto de um terrível engano que tangeu as caravelas do Cabral no meu rumo e findou por deturpar o futuro da minha gente índia, preta, branca, mulata, cafuza, confusa, cheia de problemas e soluções, e linda como a pele macia de Oxum, numa alusão a Vinícius, o poeta.

Eis porque ouso vos afirmar, caríssimos, que não há, em lugar qualquer do planeta, pedacinho de chão onde viceje tanta tramóia e de onde brote tanto fantoche e tanto ladrão.

O Brasil, desde os mais remotos tempos, sempre foi o país da esperança, desde os criminosos que aqui chegaram para a exploração da terra, nos primeiros tempos; passando pelos invasores holandeses e franceses; pela cômica corte portuguesa que aqui chegou, em 1908, correndo com medo de um déspota maricas chamado Napoleão Bonaparte; indo ter com a audácia de Ronald Biggs, aquele que assaltou o trem pagador na Inglaterra e viveu por décadas por aqui zombando da austeridade inglesa.

E agora, já na pós-modernidade, exercendo a competência herdada desde a gatunagem dos políticos do Império, com direito a especialização em evasão de divisas e trambiques interna-cionais, surge altaneira essa estupenda e estúpida trupe de saltimbancos ladrões que pululam feito vermes recém-nascidos no terreno fértil do planalto central.

Nesta terra de Dom Pedro, o sacana, o sujeito é flagrado com as calças na mão, a perua nua na cama, copos sujos e baganas de cigarro no criado mudo, e, mesmo assim, ainda quer convencer a vítima prosaica que faz o papel de marido surpreso de que é apenas um médico exercendo o seu desideratum sagrado de salvador de vidas tão afoitas.

A imprensa grava tudo, e não apenas o áudio, mas o vídeo. O prefeito de Araçoiaba da Itapipoca realmente estava com a mão na massa quando tentava corromper o empreiteiro da construção da escola, mas arranjou um advogado que o inocentou a peso de cem mil dólares.

As provas são inequívocas, não há indícios, há fatos, há testemunhas e confissões e cuecas e meias abarrotadas de dinheiro, mas o cara-de-pau teima em dizer que é montagem de computador ou perseguição política.

Ora, irmãos! Contra fatos não há argumentos, só no Brasil de Maluf, esse punguista e tungador que morre dizendo que é santo, quando ficaram provadas as evasões de divisas. Ocorre no país do Zé Roberto Arruda, o cínico (do grego cinos, cachorro), que caçoa e ri na televisão tirando sarro da minha cara com a sacanagem tão bem capitaneada por ele. Esta é a pátria de Renan Calheiros, aquele que traiu a mulher, vendeu as vacas a peso de ouro e, depois, voltou a mandar no legislativo nacional apoiado pelo Zé Sarney, o mais velho e o pior.

Infiro que a Justiça protela porque a frouxidão das leis e as entrelinhas cartoriais assim o permitem. Julgo que é esse artefato jurídico permissivo e vergonhoso, esse recorrer eterno das decisões, que levam o safado a zombar de mim via satélite…

Ora! Eu não sou culpado até que não me provem o contrário…

2. O joio e o trigo
A cada hora fico mais velho e todo dia mais estupefacto. Aqui, quem tem competência não se estabelece, mas trabalha muito e o dinheiro vai para aquele que não sabe sequer apontar para onde estão os quatro pontos cardeais.

Pegando por outro eito da mesma lavoura arcaica, digo-vos que qualquer recruta biruta brasileiro já concluiu que, aqui, o político faz zombaria do povo e o povo glosa de si próprio. Senão vejamos.

As diferenças mais abissais em termos de políticas não partidárias, mas desenvolvimentistas, são observadas a olho nu. Basta um mínimo de atenção ou discernimento, até do mais desinteressado dos apolíticos. (Mesmo que seja nefasta a existência destes últimos para a democracia.)

Observemos que os nossos ministros do Poder Judiciário – Supremo Tribunal Federal e congêneres – têm formação esmerada, com mestrados, doutorados e pós-doutorados nas grandes universidades do Brasil e do mundo, defenderam (consubstanciaram cientificamente e escreveram de próprio punho) teses reais até em outras línguas, foram aprovados em concursos de três ou quatro fases, fizeram testes de proficiência em idiomas estrangeiros, passaram por sabatinas respondendo, no mais das vezes, questionamentos dos maiores jurisconsultos do mundo, e assim por diante…

Ao passo que os senadores e deputados, na sua grande e quase infinita maioria, são apenas sombras de personalidades mais brilhantes, como Mercadante, Suplicy, Paim, Tião Viana e Marina. São meros profissionais da política, grandes enganadores da república que não sabem fazer outra coisa além de tramar, urdir e planejar sempre a favor de si e contra o povo.

Aí, o Zé Genoíno, nos corredores do Congresso, deu de cara com o Rafael Cortez, do programa CQC  –  Custe o que custar  –  da Rede Bandeirantes. O deputado pernambucano-paulista deu um safanão na câmera e proferiu umas palavras pouco carinhosas contra o repórter que lhe fez pergunta de difícil resposta. Nada respondeu.

A outros e outros deputados, aqueles noventa por cento do baixo clero, são feitas perguntas sobre, por exemplo, quais os vizinhos da América do Sul que não fazem fronteira com o Brasil. Esta, sim, uma indagação digna dos garotos de quinta série. Mas eles não respondem e desconversam porque pensam que o Uruguai fica situado no mar do Caribe.

Senhoras e senhores! Quem é essa gente? De onde eles vieram? Por que vós os escolhestes? Certamente, a fim de muito mal vos representar a partir do momento em que abrem as bocas de dentes de ouro. Pelo amor de Deus!

Na verdade, premeditadamente, os rapazes do CQC impõem na marra o grande vestibular dos políticos nacionais que são vergonhosamente reprovados. A superior maioria dos deputados não consegue alcançar os índices mínimos porque ainda pensam como nos anos sessenta, época em que Roraima era o Território do Rio Branco e tinha – como tem – Boa Vista como capital; e Rio Branco continua sendo Capital do Acre, assim como, o Território do Guaporé, hoje Rondônia, tinha  –  como tem  –  Porto Velho como capital… Mas isso seria muita informação para as cabeças miúdas dessa gente.

Deduz-se, então, que eles são, na sua infinita maioria, completamente despreparados para a magna tarefa da elaboração das leis. Por isto, acham saudável fazer aquela fofoca toda chamada CPI – Comissão Parlamentar de Inquérito  –  sem nenhuma base mais consistente, que nunca chega a lugar algum.
Com grande razão, os homens do judiciário, do alto da sua envergadura epistemológica, passam a fazer o que os pseudo legisladores não conseguem; e estes passam a dizer que está havendo sobreposição de poderes. Que poder teria o legislativo quando é sabido que há meia dúzia de inteligentes e seus seguidores, duas centenas de oportunistas e um bocado de apalermados a depender dos favores e das propinas dos líderes quando na hora escusa das votações negociadas? 

Nem seria necessária a ajuda dos politiquinhos. Já seria muito melhor se eles não atrapalhassem tanto, não excedendo na burrice e, acima de tudo, passando a ver mais os problemas do povo e menos os seus interesses de rapina.

3. Médico e verdugo
Sabe aquele rábula de porta de cadeia que vive da miséria dos menos afortunados? Não. Eu não quero me referir a ele. Sabe aquele professor que não consegue escrever um bilhete de próprio punho sem duas dúzias de erros monumentais? Não. Eu também não quero tratar do inominável profissional. Sabe o político safado que mente feito o caçador medroso? Destes, eu falo sempre mal e nunca demais.

Aí o indivíduo pirateia um diploma de charlatão – desses que se formam na Bolívia  –  passa a se auto-denominar doutor, enquanto é apenas um médico, enche a barriga de exageradas doses de orgulho e preconceito, e se inicia na arte e na labuta pesada que é carregar o rei na barriga  ou sentir-se o príncipe da cocada preta. É um acinte, senhores! 

(E que me desculpem aqueles poucos boli-vianos e paraguaios que não vivem da pirataria, do tráfico de drogas, da malversação e da burla internacional).
Jamais estaria aqui a pregar o desvalor dos cursos superiores destas neo-colônias da pós-modernidade, a periferia da periferia. Há, por lá e por cá, médicos bons, muito embora sejam tão poucos.

A pregação começa, aqui, a fazer com que o Governo Brasileiro legitime, sim, a convalidação dos diplomas expedidos no exterior. Todavia, antes, o candidato a portador da carteira do nosso CRM – Conselho Regional de Medicina – deverá submeter-se a provas de conhecimentos gerais, como no vestibular, ou como no Enade  –  Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (de nível supeior) – e, depois, fará os testes específicos da sua área de conhecimento (Cento e quarenta perguntas, em dois dias). Teremos muitos reprovados, certamente, mas a qualidade do profissional adotado pelo Brasil será muito superior. Além, é claro, de conseguir aproximar os estrangeiros da realidade dos médicos formados no Brasil que fazem esforços extremos para concluírem seus cursos.

Alguns ainda lembram o que passaram os dentistas formados no Brasil quando foram trabalhar em Portugal, no início dos anos 90. Tolheram-lhes o exercício da profissão e os nossos só conseguiram o seu intento quando, ao nível teórico e prático, provaram que eram muito melhores que os odontólogos de Portugal. Nesse caso, sim, os bons conseguiram se estabelecer e ainda estão por lá.

Mas é preciso ir adiante. O caso que vem à baila talvez não tenha nada a ver com os diplomas estrangeiros. Certo é que há antipatia, empáfia, desumanidade, petulância, insensibilidade, intolerância, preconceito e orgulho sem medida.

Há, em Xapuri, pago a peso de ouro, um tal Rafael, médico, que, no interior, apelidam-no doutor, mesmo sem nunca ter feito sequer um mestrado. Dizem-se e comprovam-se atitudes arrogantes, intempestivas e petulantes. O semi-deus não fala, mas esturra, relincha. Ética não é substantivo que habita o dicionário roto do homem da saúde do município. Respeito nunca foi a meta nem o princípio, haja visto que, na Sibéria, um bairro periférico, o homem conseguiu atender trinta pacientes pobres em quinze minutos, com o seríssimo agravante de, para todos, prescrever o mesmo medicamento. (E haja panvermina! Como no tempo do bom Dr. João Lira, antigo médico milagreiro dos xapurienses!)

É como o cidadão, pagador de impostos escorchantes, ir dormir saudável e acordar morto, a depender de um pústula tal. E, como se não bastasse, o tal Hipócrates  –  o pai da Medicina  -é completamente desconhecido do gajo. Sensibilidade não lhe restou nenhuma, mesmo porque não nasceu com tal adereço espiritual.

É esta a maior contribuição que eu e a Câmara Municipal da princesinha do Acre estamos dando à saúde dos heróicos xapurienses, na graça de Deus.

* José Cláudio Mota Porfiro é escritor em alta produtividade: www.claudioxapuri.blog. uol.com.br

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